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Diario de uma menina que ama jujubas
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As desventuras de uma futura jornalista fora da patria amada.
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Quinta-feira, Abril 10, 2008
Paixão por futebol
Acho que nasci vascaína.
Apesar dos protestos e tentativas frustradas de uma conversão forçada pela parte materna da família, continuei vascaína.
Apesar dos eternos vice-campeonatos - sempre ou quase-sempre perdidos para o flamengo -, das lágrimas com cada derrota, da falta de motivos para comemorar o orgulho ao time, cresci vascaína.
Como explicar então a paixão recém-adquirida pelo botafogo?
Acho que você sabe. E, no fundo, eu também.
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Domingo, Março 30, 2008
Dadá, me dá um beijo no nariz
É triste a confusão mental, o dessarranjo metafísico dessa realidade bizarra.
Só a minha realidade é bizarra, a que vejo através de meus olhos sonhadores, míopes pela utopia apaixonante da tarde de sol.
Por que não me basta a incerteza? Por que nada me basta?
Serei egoísta, doente, demente, carente, insolente, possessiva, maníaca? Ou serei simplesmente sozinha?
Serei sozinha, fui sozinha, sou sozinha. A companhia carnal não me basta, é isso. Acabo de descobrir a sustentação do meu edifíco superinflacionado e mal administrado. Preciso de mais, de algo perene, permanente, entranhado, vivido e sentido às últimas consequências. Algo abstrato. Algo sentido e vivido mesmo.
Não preciso de sexo, de toques e retoques. Preciso do sorriso, do olhar, da palavra, solta no ar e dissipada em todo meu entorno. Se estiver, que esteja totalmente. Se não está totalmente, que não esteja. Nem um pouco que seja.
Sou extrema, sou oito ou oitenta, tenho nuances tão bruscas quando uma obra dadaísta. Dadá, me dá um abraço. Me dá um beijo no nariz. Me dá um sorriso bobo. Mas me dá totalmente, não aceito o meio-termo.
Se estiver, que esteja totalmente. Se não está totalmente, que não esteja. Nem um pouco que seja.
E assim vou sozinha, caminhando sempre sozinha na procura de uma companhia que me envolva e que me devolva a paixão perdida com a série de frustrações. Série seguida de perto pelo espelho, denunciador do olhar infeliz e sorriso concomitantemente alegre.
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Domingo, Março 23, 2008
Resígnio
Aceito a condição. Aceito? Aceito. Por agora, aceito.
Aceito a condição de não ter entranhado na minha pele o cheiro do beijo molhado e lúdico. De não ter a tarde de chuva atenuada pelo abraço e o direito de olhar pro teto com a companhia que vai além do travesseiro e edredon.
Aceito a condição de não ter a certeza. A desejada, necessária, a inexorável certeza de que ao menos um pensamento está procurando uma lembrança minha.
Mas também aceito a necessidade inerente à carência cultivada com tanto descaso, ao acaso. Carência bem-mal-vinda de mãe, pai, mulher e homem. Carência que todos cultivaram tão bem e que hoje parasita todos os meus medos. Medo de mim, medo de você, que não está e está aí. Aceito, sim, a carência que é parte de mim.
Aceito ser uma mulher que não sabe o que fazer de si. Que quer fazer parte, a qualquer custo, alto custo, da vida de alguém. Mas que mais que isso, quer que esse alguém faça parte e arte de sua vida.
Aceito a condição.
Resignada.
Talvez, inconsolável.
Mas aceito.
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Domingo, Março 16, 2008
Que alguém me livre dela.
Sinto a dor do apego proibido e marginal, que faz sofrer paradoxalmente à condição básica de fazer feliz.
Por que os dias de chuva? Por que os dias cinzentos?
Preciso do edredon cúmplice da sensibilidade exacerbada, do travesseiro moldado conforme o cair das lágrimas tão estranhas a mim. Na verdade, não tão estranhas assim. De verdade, nas entranhas de mim.
Por que os dias de chuva? Por que os dias cinzentos?
Ser mulher implica em todo tipo de alteração sem sentido. Muito bem e mal sentidas. O tempo, mero fator coadjuvante do premiado dia, sobe ao palco e rouba meu riso. Faz ver, o sádico, que sou só, quem sou eu, que sou sempre somente eu a culpada e única culpável pelo desastre ou sucesso de mim mesma. Não tenho consolo, não quero consolo. O será que quero?
Graças a Deus não choro hoje. Quero chorar e gritar e fugir. De novo, fugir. Porque eu sou uma nômade selvagem, um vento sem propósito no calor do verão absurdamente carioca. Sou uma fugitiva da vida e quero uma desculpa furtiva pra poder chorar e tirar isso de dentro, de dentro do meu peito que dói e quer gritar. Deixe-me chorar e gritar e fugir, imploro a mim mesma, essa mulher cruel que me absorve e me impede de ser. Por que a exigência? Por que é tão difícil simplesmente ser quando eu sou dominada por mim mesma, dura e implacável, rígida com as fraquezas mais desculpáveis e entendíveis?
Essa armadura maldita. Que alguém me livre dela. Que alguém me livre dela. Porque eu sozinha já não posso mais, já não dou conta. Que alguém me livre dela.
Por que os dias de chuva? Por que os dias cinzentos?
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Quinta-feira, Março 13, 2008
Viver, e não ter a vergonha de ser feliz
Já faz um mês, e eu posso sorrir de novo.
Não sei o que é esse calor que me embala numa bossa mista de riso e choro.
Sei que posso desgrenhar meus cabelos e deitar olhando o céu, porque o céu é meu, o céu sou eu e eu sou sua. Do céu. É, do céu.
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Terça-feira, Fevereiro 12, 2008
Basically, I wish that you loved me
É o sentimento mais urgente. Sou humana e posso gritar, então grito. Sou impulsiva e humana, uma mulher em cada canto de mim mesma. Sou insegura e frágil, mas grito com a força de um vento frio e cortante. Eu grito. Quero entender o mistério dessa vida que me leva por caminhos tão deliciosamente assustadores. Não, não quero entender nada. Quero continuar a me surpreender com cada esquina e frio na barriga, quero sentir o gosto do primeiro beijo, que não é primeiro.
É essa maravilha inebriante de sentir tudo como se fosse a primeira vez, de ter a fascinação incutida em cada molécula e em cada partícula de mim, desse corpo que não é meu e nessa vida que é só minha. Quero ser a mesma criança, e sorrir alegre e inocente da chuva que cai lá fora. Quero ver a beleza na nuvem em forma de coelho e sentir o cheiro forte da grama após a tormenta. Quero me sujar de lama. Quero olhar pro mar e continuar a menina encantada com o longe que ele chega, tão longe.
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E foi aí que o texto quis parar de ser escrito.
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Domingo, Fevereiro 10, 2008
Fragmento
Qual o tamanho do desespero quando você senta na cama após acordar assustada com a grande revelação? Você não lembra o que sonhou nem por que se despertou. Só sabe que, depois de anos gastos em relações conflituosas, vem a frase insolente e provocante. Você tenta pensar, lembrar da última conclusão que chegou, mas nada te traz luz. Você só sente a dor no peito, a mão da angústia contra esse órgão tão super-valorado que é o coração.
“Eu nunca amei”, você diz, verbalizando a verdade vergonhosa.
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Sábado, Fevereiro 09, 2008
Fade in, plano-sequência, Fade out
- Olha lá, Emília! Olha, lá na janela! – sussurrava nervoso Lucas, agachado detrás de um chevete antigo.
- Shh! – pediu Emília, com os olhos arregalados. – Quer que vejam a gente aqui?
Os dois se sentaram com as costas na lataria do carro, respirando acelerado. Emília olhou dentro da mochila e agarrou um cigarro.
- Apaga isso, garota! Olha a fumaça!
Após tragar uma vez, expirou para debaixo do chevete, olhando pra ele com desprezo.
- Você acha mesmo que eu sou idiota, né? – perguntou ela em tom impaciente. Com o cigarro apoiado no meio-fio, esgueirou a cabeça até o vidro do carro e procurou ver se a janela continuava acesa.
- E? – quis saber Lucas, coçando o maxilar.
- Ainda tem gente.
- Eu tô ferrado, Emilia. Eu tô ferrado... – repetia olhando a parede. Estavam do outro lado da rua de um bairro de periferia, mal-cheiroso e silencioso como todo bairro de periferia depois da meia-noite. A parede de um edifício em construção garantia que ninguém indesejado lhes atrapalhasse ou surpreendesse.
- Deixa de ser chorão. Ainda dá tempo. – respondeu ela com ar irritantemente superior. – Ela ainda está dormindo?
Lucas se virou para o lado e retirou uma bolsa de pano do rosto de uma criaturinha pequena e frágil. A criança, que deveria ter entre 3 e 4 anos, dormia induzida por forte dose de éter e valium. Era uma menina.
- Óbvio que tá... Eu te falei pra gente não dar valium pra ela, e se acontece alguma coisa? A gente tá ferrado, Emília...
- Quieto. – fez ela, levantando a mão imediatamente para tapar a boca do cúmplice. – Eles estão indo embora.
A luz externa da casa observada se acendeu, e então foi possível escutar a porta se abrir e pessoas que conversavam com ar solene.
- Faremos de tudo para encontrá-la, Senhora Freitas. Não se preocupe, colocarei meus melhores homens para trabalhar no caso. – dizia o homem com aspecto frio, como quem repete um discurso já incutido nas veias. – Vamos, Carlos.
Então seguiram os dois homens em direção a um carro estacionado a dez metros da porta de entrada da casa dos Freitas. Deram partida e foram embora, desaparecendo na primeira esquina. A Senhora Freitas já havia entrado, inconsolada e inconsolável.
- Puta que pariu... – suspirou Lucas.
- Vamos. Agora.
Lucas agarrou o corpinho da criança e, agachado, se esgueirou atrás de Emília, que atravessava a rua com agilidade. Sem luzes que os fizera notar na noite, os dois tiveram sucesso na travessia. Colocaram a menina no portal e saíram como entraram, como dois transeuntes perdidos na noite.
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Ela era assim...
Ela era assim, sem sal, sem mal nem bem. Tão normal como qualquer um, tão anormal como todo mundo. Queria ser alguém, mas sabia que não era ninguém e que estaria sempre aquém de si mesma. Gostava de deitar na grama e seu sonho era nadar na grana. Um sonho assim, recheado com creme mesmo.
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Back to Rio, baby
Olá, pequeno público. O que contam de novo?
Uhum, ãnh, aah, haha, é verdade.
Uau, que legal! Uhum, imagino...
Caramba! Nossa, realmente...
É, eu?
Então, eu fiz aniversário, saí com um carinha, comecei a trabalhar, terminei o primeiro ano da faculdade, visitei a família nas férias, briguei com as companheiras de faculdade nas férias, fui à São Paulo a trabalho, vi minha irmã terminar o colégio, deixei de sair com o carinha que tava saindo, voltei a Buenos Aires, fui perseguida por esse mesmo carinha - quem se revelou um maníaco compulsivo -, tranquei a faculdade, deixei o trabalho, e estou voltando pro Rio. É, voltando pro Rio. Isso, filho, voltando pro Rio. De vez, é.
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Parece insano, não? Eu sei.
Mas é como eu digo, eu não era feliz aqui.
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Sábado, Setembro 22, 2007
Would you forgive me love, if I dance in your shower
Caminhei pela praca com passos rapidos, abracando minha cintura numa tentativa inutil de combater o frio. A carteira apertada em uma mao, parei na banca de jornal e olhei bem a capa do Globo de hoje. Ao lado, o New York Times e depois, Le Monde e El Pais.
Sentada na cama com as pernas cruzadas numa postura infantil, secava o cabelo com uma toalha escutando enquanto Alanis narrava sua visita secreta a casa do ex. O Pequeno Principe estava aberto na pagina 37.
Com uma faca limpa cortei uma fatia do bolo de chocolate, meti um pedaco maior que o recomendavel na boca e me sentei no balcao da cozinha olhando o cemiterio. O sol estava se pondo e as ciclamens balancavam abruptamente do lado de fora da janela.
Quero um abraco que nao seja do meu travesseiro.
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Quinta-feira, Setembro 20, 2007
And it's been turpentine and patches
Alguem disse uma vez que na vida voce so se apaixona de verdade uma unica vez.
Voce sente frio na barriga, brinca com a comida na hora das refeicoes com o olhar distante, demora horas no banho, danca no trajeto de um comodo da casa a outro, treina sorrisos e reacoes pro espelho, compra roupas com base no gosto alheio, faz as unhas a cada semana, se depila, corta o cabelo, compra maquiagem, passa perfume, dorme abracada durante a noite mesmo que a posicao esteja algo desconfortavel, prepara o cafe-da-manha, toma onibus por duas horas num calor de 38 graus, tem o celular a tira-colo todo o tempo por uma eventual mensagem de texto, compra balas e outras besteiras como presentinho...
Temo que a minha vez ja tenha passado.
E voce nao esta mais aqui.
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Quarta-feira, Setembro 19, 2007
Isn't it ironic
Tenho amigdalitis e livros para ler. Uma cama desarrumada e o pijama vestido. Uma tigela de cereais com leite e um arco no cabelo.
Sou uma menina normal, que acredita no fundo que o mundo 'e um lugar bonito. Que le Sartre e seu existencialismo e imagina cenas de filmes com as musicas que escuta - quase todos, comedias romanticas. Que nao gosta de ver pessoas dormindo na rua, mas que ainda assim faz compra de roupas de marca. Que ve que tem algumas gordurinhas que nao estavam ai ha um tempo, mas que nao resiste a uma barrinha de chocolate nos recreios da manha. Que vai ao cinema sozinha e diz nao importar-se quando, na verdade, morreria por estar abracada com alguem. Que danca de roupa intima e toalha na cabeca na frente do espelho, fazendo poses provocantes quando afirma de pes juntos aos outros que nao se sente nada sexy. Que dorme depois de comer apesar de ter milhoes de coisas pra fazer. Que ama sair a tarde, ir ao museu, tomar sorvete e deitar na grama, mas esses eventos se resumem a dias especiais, quando podiam se dar todos os dias. Que tem a dualidade infundada de almejar ser correspondente internacional de algum jornal e ao mesmo tempo ter uma casinha no lago e ver seus filhos brincarem ao ar livre. Que diz que nao se ve casada, mas que no fundo ja tem tudo planejado: vestido, tipo de cerimonia, lugar.
O domingo chega com os meus 21 anos. Nao estou feliz.
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Domingo, Setembro 16, 2007
I'm not here, not anymore.
Esta chegando o dia. E com cada meia-noite, uma lagrima. Nao vou ter os abracos e beijos e bolos e velas de sempre. Vou estar sozinha, em um lugar onde nao significo nada alem da agregada extrangeira aspirante a jornalista. Sou uma nomade, uma aventureira pelo simples fato de que nao tenho com o que sonhar. A visao de meu marido dancando com nosso nenem escondido no quarto 'e simplesmente utopica e distante. Vejo um futuro em uma terra arida e dificil, cuidando de criancas afegas enquanto tento retratar os horrores de alguma nova guerra.
Tudo o que eu queria era encontrar algo que me fizesse querer ficar.
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Quarta-feira, Setembro 12, 2007
You try so hard to be someone that you forget who you are
Ela olhou séria e fez uma careta. Um olho maior que o outro, a língua saindo contraída do lado direito. Ele riu, agarrou o travesseiro e o tirou na direção dela.
- Te amo, idiota.
- Eu sei, ogro.
Ele se sentou na cama e agarrou a bermuda do chão. Depois de vesti-la, se levantou e espreguiçou. Ela ainda estava deitada, os cabelos desarrumados e cheios, a maquiagem borrada. Vestia uma camisa de algodão de uma banda de rock que não era sua, demasiado grande e frouxa. Puxou o cobertor, deu um sorriso engraçado e rápido e se virou pro outro lado.
Ele fez o café-da-manhã, arrumou tudo em uma bandeja de fórmica e levou ate o quarto. Um pacote de batatas-fritas industrializadas, coca-cola, bolinhos Ana Maria e pudim de leite. Ela se retorcia na cama, um grunhido indicava a falta de vontade de despertar-se.
- Levanta, trouxe o café.
Ela se vira de súbito e olha. Dá um sorriso terno e pula no pescoço dele.
- Cuidado, cuidado, vai derrubar tudo – alertou com a voz abafada pela boca da jovem.
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O pior de tudo e que eu sei que você se lembra tanto quanto eu.
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